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08/10/2009
ÀS MARGENS DO RIO FANADO, EU SENTEI E CHOREI...
DEUS PERDOA SEMPRE. O HOMEM, ÀS VEZES, A NATUREZA, NUNCA! VIDE O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM AS ÁGUAS DO PLANETA!
“Einstein dificilmente teria desenvolvido a teoria da relatividade se não acreditasse que Deus governava o universo por leis razoavelmente simples”. Outro dia li essa afirmação do ex-ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, num grande jornal mineiro, e nunca mais me esqueci dela.
Começo a me sentir um tanto egoísta por pensar que meus descendentes devem viver num mundo razoável e agradável. Quando criança (o que não faz muito tempo), eu nadava e bebia a água de um grande rio, conhecido como Fanado. Outrora rico em ouro, os portugueses tiravam daqui muito ouro, ouro este que era amontoado para, ao final, ser passado na bica, lavado na bateia, apurado o metal, para depois subir o morro para se fazer a contagem e divisão, e lá se ia embora nosso patrimônio aurífero, começando a traçar o destino de nossas águas.
O rio corria mais alto que minha estatura de menina, muitos perderam a vida nele, na época de chuvas, nas enchentes, lá ia alto o Fanado, chegando até a, um dia quando eu ainda não existia para contar com detalhes, impedir o cruzamento da ponte para se chegar à cidade. E o Fanado ficava lá, com suas águas plácidas fazendo um convite para o banho. E a meninada se esbaldava.
As margens do Fanado eram ricas em vegetação. Seu leito abrigava água limpa e potável, águas que escutavam serenas o canto das lavadeiras. E que se dava, em potes de barro, para o povo que descia o morro da Rua da Bela Vista, para, na Quinta-feira do Angu, lavar, com a água do rio, a Igreja em honra a Nossa Senhora do Rosário.
Mas o destino muda o curso de nossas vidas, muitos de nós são levados pra longe, mas o Fanado continua fazendo correr suas águas em nossas lembranças.
E voltamos, sempre voltamos, pega-se a estrada rumo a Minas Novas, passando na ponte sobre o Fanado. Queremos que os de lá conheçam as coisas de cá.
E quando chegamos, ainda de madrugada, sedentos e sufocados, loucos para bebermos a água e nos banharmos no Fanado, na aproximação a desolação é grande, e toma conta de mim: numa cidade vizinha à nossa, os fazendeiros do café, estão desviando o curso do rio para irrigar suas plantações e extrair cristais, e os esgotos das cidades pelas quais passa o rio são depositados nele, a água não passa da canela, a não ser em alguns poços nos quais empresas de nossa cidade retiram areia para a construção.
Sem lavadeiras, sem crianças nadando, sem vegetação nas margens. O Fanado está se transformando em um monte de areia e lapa.
É só conversar com algumas pessoas e resposta se dá sem titubeios:
__ “O FANADO É UM RIO COM DATA MARCADA PARA MORRER.”
Choro! E penso, que se tivesse permanecido criança, como na Terra do Nunca, de Peter Pan, o Fanado ainda estaria lá, passando sobre minha cabeça, eu sem poder entrar sozinha, mas ele estaria lá grande, macio, com muita água.
Mas ainda há tempo, o Fanado pede socorro, e você pode, nós, juntos, podemos reverter essa situação, podemos salvar o que resta do rio. Vem com a gente! Sem medo!
Não vamos deixar que um bem comum se acabe nas mãos de alguns que só pensam em si mesmos. Vamos lutar para que possamos ainda, por muito tempo, passar sobre a ponte e ter a certeza de que o Fanado estará lá, sob ela, nos convidando para um banho. “Basta ser sincero e desejar profundo você será capaz de sacudir o mundo”
Sâmia Barbosa
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24/11/2008
Minas Novas - Terra de doido.
Todos dizem que minha cidade é terra de doido. Minha cidade tinha muitos doidos, contou-me vovô. Cada doido mais doido com suas manias, suas esquisitices.
E vovô fala de cada um com tanto carinho que dá vontade de conhecer Bastiana Doida, Bastiana Mingau, Onofre, Zezé Reverth, Biela, Varistinho, Rita Pezinho, Modesto e tantos outros que povoam a imaginação do povo daqui. Todos doidos, mas doidos mansos, boa gente!
Vovô falou de Modesto - de poste em poste - batendo e ouvindo. Ouvia sons imaginários e repetia-os a quem quisesse ouvir, cantando cantigas doidas e desatinadas.
Lembrou também de Bastiana Mingau, preta velha e forra que vivia em companhia do compadre seu. E damos muitas risadas quando vovô disse que Bastiana rezava, gritava e chorava entre tosses, risos e peidos.
Que vontade de ter vivido a infância de vovô para ter conhecido Mestra Biela - culta, violonista, professora - que filosofava sobre política municipal dizendo que chegaria o dia de cair os muros e subir os monturos. Vovô disse que se arrepiava diante de tão louca lucidez.
E Onofre? Repetidor de frase conhecida até pelas ruas e becos da cidade: "Encher 'pó' é 'ieu', fazer ‘chichimia’ é os 'oto' ". E vovô disse que ainda sou criança para entender o que é "fazer chichimia".
Um dia eu aprendo. . .
Vovô contou-me a história de Rita Pezinho que era o terror da criançada e sentava-se nos degraus do Rosário e passava horas quieta, até que a "capetada" viesse lhe perturbar. Aí, então, Rita descia o pau. Vovô falou das ilusões de Rita - que sonhava ver crescer seu pezinho, devorado pelo fogo, o que rendeu seu apelido e a fez conhecida por mais um ditado popular da cidade: "Oh! Ilusão de Rita Pezinho"! Ditos a qualquer um que sonha sonhos doidos.
Vovô falou de Varistinho - doidinho por sinos de igreja e também de Zezé Reverth, doido, mas que carregava sonhos grandiosos, de dizer e se achar um nobre, vindo da França - em uma nau, que segundo vovô era um barco grande que fazia viagens intermináveis de um país a outro. Pobre Zezé! Como devia sofrer!
Comoveu-me a triste história de Manoel Rabicó, doido menino que vivia na rua, sujinho que só. O doidinho tomou banho uma vez na vida, dado pela polícia, nas águas do Fanado, por ordem do prefeito pôs-lhe bota, gravata e roupa limpa, pois disso Rabicó subia e descia ladeiras dizendo:
“- Neguinho hoje tá penando!”
E encantava a cidade que ria-se das peripécias do Neguinho.
Essas figuras misturam-se em minha cabeça e me pus a sonhar com cada um e comparei-os em minha meninice, aos doidos de hoje, doidos bobos, sem graça, sem encanto e sem fantasia.
É vovô, nossa terra é terra de doido sim, mas eu queria mesmo era ser criança, junto com você, para conhecer as pessoas mais lúcidas de que já ouvi falar: os doidos de seu tempo de criança.
Samuel Gomes Fernandes - Aluno da 7ª série - E. E. "Dr. Agostinho da Silva Silveira"
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24/11/2008
MEMÓRIAS LITERÁRIAS: CONTAR PARA NÃO MORRER
“Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos c que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estavam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma.”
Para Aristóteles, a memória é uma fruição da imagem. Fruição que, segundo ele, é ampliada pela reflexão e leva ao acontecimento do passado como tal, que é a recordação. Logicamente esta é propriedade exclusiva do homem. Portanto, a matéria da recordação é algo que deriva e implica a inteligência, uma vez que auxilia o reconhecimento de algo que é pretérito.
E como a memória se processa na literatura? Memórias, uma oportunidade poética, parte do princípio que a capacidade humana tem de recuperar as coisas vividas e pela potencialidade do imaginário de verbalizar cenas e fatos. Assim, as memórias literárias não passam só pela autoria, por aquele que lembra, mas pelo narrador que traz para o texto um somatório de experiências de linguagem; e estas experiências são sempre revigoradas por possibilidades líricas.
A expressão da temporalidade em um texto de caráter subjetivo, comprometido com a história de quem conta, extrapola o real vivido. Aquilo que se convencionou chamar de realidade em relação ao passado, dificilmente pode ser definido ou isolado com precisão. Não se pode confundir a realidade com aquilo que é contado, pois as memórias escritas dão ao texto certas garantias de realidade, mas, ao mesmo tempo, elas se escrevem e se constroem muito mais pelas possibilidades da invenção. Se há uma permuta entre o real e o imaginário, há muito mais espaço para a fantasia.
O sujeito que lembra, nas memórias escritas, é um controlador da autoria, da estruturação dos fatos, mas é muito mais um manipulador da função estética, dramática e lírica de todas as suas lembranças, em torno do desdobramento do sujeito que viveu, agora, seu personagem. O autor-escritor-narrador passa a ser muito mais o sujeito do verbo das lembranças: eu me lembro, recordo bem, ou passa a ser objeto direto ou indireto de pessoas, coisas e fatos lembrados, pronome possessivo ou oblíquo. Ilustro estas minhas afirmações: "Lembro-me da pena de pato com que meu avô escrevia" (José Américo de Almeida, in: Antes que me esqueça); "Hoje, passados tantos anos, eu o recordo com carinho e com saudade. Saudade do meu gato que, aliás, não era propriamente meu, mas sim de minha família. E seria ele, realmente, da família?" (Zélia Gattai, in: Anarquistas, graças a Deus); "Minha mãe lia devagar" (Graciliano Ramos, in: Infância) e "Educam-me na religião católica" (Murilo Mendes, in: A Idade do serrote).
A pretexto da Olimpíada de Língua Portuguesa, os alunos das sétimas séries da Escola Estadual Doutor Agostinho da Silva Silveira começaram a (re)contar suas memórias literárias. E pegaram gosto. O trabalho é resultado das lembranças, causos, entrevistas, rememorações e é um trabalho árduo de meninos e meninas que se tornaram narradores de memórias. Em um mundo em que os dias e anos passam com grande velocidade, surgem pessoas dedicadas a resgatar idéias e sentimentos que pareciam esquecidos e sem valor. Esses resgates têm sido feitos por meio da recuperação e registro das memórias das pessoas, a partir dos depoimentos delas. Memórias que não são apenas um retorno a um passado imutável, mas que, ao serem narradas, lembradas e relembradas, adquirem novos contornos que podem ajudar a repensar o presente em que se vive e o futuro que se planeja.
A rica diversidade e poesia dos textos está contada em cadernos ricamente confeccionados e traz um pouco da história dos que, durante toda uma vida, viveram uma experiência coletiva, porque têm algo em comum: somos fanadeiros. E vimos renascer nossos doidas, ruas e becos, brincadeiras já esquecidas, lamentos, aboios e cantigas... Isto porque a história de um passa a ser a história do outro, a experiência de um serve como experiência para outro e, pelo que resgatamos de nossa memória, construímos não só nossa história individual, mas construímos um novo modo de nos sentirmos no mundo. Pelas reflexões que essas experiências vividas, tomadas como objeto de escrita, nos permitem, crescemos pessoal e profissionalmente.
Nossa escolha de vida certamente se cruza com outras escolhas que fazemos, consciente e ou inconscientemente. O que importa é poder resgatá-las como discursos que revelam tesouros: sujeitos sócio-históricos que, fazendo de sua vida um espaço de ética criativa, confirmam seu pertencimento à humanidade.
Profª. Irene Barbosa Sena
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06/05/2006
Minas Novas
Para Drummond
poeta itabirano
a terra natal
é apenas um retrato na parede
(... e como dói! )
Para mim
que nem poeta sou
Minas Novas é um retrato no coração
(... e como gosto! )
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24/05/2005
Festa de Nossa Senhora do Rosário
"Bendito e louvado seja o rosário de Maria, se ela não viesse ao mundo, ai de nós, o que seria?" A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas convida a todos para a mais tradicional festa da cidade.
A festa em honra a Nossa Senhora do Rosário acontece todos os anos nos dias 23, 24 e 25 de junho, desde 1810.
Em breve o "Beirando o Fanado - O Blog" disponibilizará histórico da festa. E, após, cobertura completa.
Para ver o cartaz com a programação clique aqui.
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